Tenho ficado em casa. Saio apenas para o estritamemte necessário. E o necessário pra mim tem sido pouca coisa.
Ontem estava falando com um amigo do Rio de Janeiro e lembrei de um texto que escrevi quando voltava de lá no ano passado. Não é nada demais, mas para não deixar isso aqui cair no ostracismo, segue ai.
NEUROSE, VOCÊ UM DIA VAI TER UMA.
Pra variar, a mala era das grandes e tive que pegar um táxi para a rodoviária. O taxista, um cara de cabelos grisalhos e compridos, com óculos tipo Ray-ban e a simpatia digna desta classe trabalhista. Já no primeiro quarteirão da corrida ele começou a puxar assunto e eu fui dando corda. Falou da violência do rio, da administração da prefeitura, disse que eu tinha que voltar no verão, pois "é no verão que a coisa fica boa", me contou que era amarradão por filmes do velho oeste, que Billy the Kid era lenda e que o fodão mesmo tinha sido o Búfalo Bill (que aliás foi o primeiro carteiro norte-americano!), disse que já tinha morado em Goiás, até que chagamos no assunto viagem. Eu tenho uma relação de amor e ódio com estrada. Adoro viajar, mas respeito todas as adversidades que uma estrada pode nos proporcionar. Assalto, pneu furado, armadilha de traficantes, blitz, cachorro no meio da pista, atropelamento, neblina espessa na serra e lógico, em acidentes com vítimas. Voltemos ao taxista, ele me contou que numa das vezes que viajou até São Paulo viu um acidente feio na estrada. Um carro bateu de frente com um ônibus e que três das quatro pessoas que estavam no carro morreram na hora. Uma mulher e duas crianças. O marido ficou preso nas ferragens com a mola do banco transpassada pelo seu peito. "Deve ter morrido no hospital", disse ele. Achei bárbaro ele tocar no assunto quando eu justamente estava indo pegar a mesma estrada. Mas apesar disso, ele era um cara simpático e minha boa alma impediu que eu o mandasse calar a boca ou tomar no cu. Chegamos na rodoviária, peguei minha mala, paguei e me despedi. Ufa, a mala estava pesada e minha cabeça só tinha espaço para coisas catastróficas. Valeu, rapá!! Cheguei no guichê e o próximo ônibus sairia em 5 minutos. Sempre prefiro sentar na janela, assim posso ver se o ônibus está desgovernado ou se o motorista está fazendo ultrapassagens perigosas, mas desta vez não tive como escolher muito meu assento, o ônibus já estava cheio. Poltrona 28, corredor. Pelo menos fica no meio do ônibus, o que dá uma certa margem de segurança caso ele bata em alguém ou alguém bata nele. No meio fica mais difícil ser esmagada. Compro minha passagem e corro até o ônibus. A primeira coisa que faço sempre é olhar para a cara do motorista pra ver se ele aparenta estar cansado, se os olhos estão vermelhos ou estalados, se pode estar bêbado, essas coisas. Tudo parecia normal. Guardei minha mala e escrevi meu nome e RG na passagem. Sei que é um procedimento normal, mas sei também que serve caso aconteça algo que não estava previsto como, por exemplo, identificar a vítima em caso de acidente. Me dá uma certa aflição, é como assinar um contrato onde você corre risco de morte. Mais nada a fazer, entro no ônibus, sento, respiro fundo e pego um livro tentando desviar minha atenção para algo menos perigoso. O livro, A Casa dos Budas Ditosos do João Ubaldo Ribeiro. Cacete, nunca li tanta sacanagem de uma só vez, acho até que o que o João anda dizendo e que está também escrito na contra-capa que ele recebeu um pacote com a transcrição datilografada de várias fitas, gravadas por uma misteriosa mulher, é balela. Ele não ta é querendo se comprometer. Safado. Por que será que todo velho fica safado? Deixa pra lá. Já chegando em São Paulo, a moça ao meu lado liga o rádio e começa a cantarolar uma música. Detesto gente que coloca walkman e fica cantando em voz alta. E cantando mal! Quando chega no refrão ela canta alto com uma voz aguda a la Gal Gosta, "Ressuscita-me...". Sem mais comentários. Estou de volta. Viva!
ESTRÉIA AMANHÃ
Canaã, A Terra Prometida
Segue abaixo o que o próprio autor, Jarbas Capusso (meu grande querido!) disse sobre o texto (roubei do blog dele com link ai do lado).
"Este é o meu quarto texto. Nasceu num debate que teve na leitura de um outro texto meu: TÃO LONGE DE CASA – UMA HISTÓRIA SEM FIM, que conta a história de um seqüestro. Lembro que fiquei de cara com algumas opiniões & conceitos sobre criminalidade emitidas pela "classe’. Conte Lopes e Erasmo Dias ficariam orgulhosos... "dela". A que mais guardei na memória foi de um cara que mandou: "bandido nasce feito, os caras já nascem ruins" e por aí foi. De embrulhar o estômago, brother. Não acreditei. Fui pra casa entendendo porque o maluf e o jânio sempre tiveram bases fortíssimas em São Paulo.
Morei na periferia. Convivi com todo mundo. Trabalhador, assaltante e traficante. Trombava todo mundo no boteco. Tomei cerveja e bati bilhar com os caras. Sei como funciona. Sei como os caras vão pro crime. Não é da noite pro dia. Tem uma pá de ingredientes no caldeirão que faz o caldo entornar.
Disso tudo saiu CANAÃ – A TERRA PROMETIDA. Chamei a queridona Zeza Mota pra fazer uma leitura no Ciclo de leituras Caos e Caos Urbanos, lá do Regis, da Usina Paulistana de Artes. Ela gostou do texto, juntou uma moçada bacana e resolveu montar a parada".
O resultado vocês podem conferir apartir de amanhã, (TERÇA, DIA 18) no Satyros.
Direção: Carlos Meceni
Com: Dan Rosseto, Munir Kanaan, Sonia Guedes e Zeza Mota
Trilha Sonora: Mario Bortolotto
Concepção de Luz: Rogério Cândido
Concepção Gráfica: Patricia Lobo
Teatro dos Satyros
Praça Roosevelt, 214 – Centro
Terças às 20:00 horas
Ingresso: 15 reais.
Estacionamento: 5 reais
Dá um chego lá!
Antes do tiro
Ainda liguei
Sua voz
Persuasiva
Sexy & cínica
S u s s u r r o u
Atira amor
Jarbas for Aline
e o c h e i r o
d e l a
i n v a d i u t o d a s
a s m a n h ã s
v i o l e n t a n d o a c i d a d e e
d e s c o n g e s t i o n a n d o
t o d a a s a u d a d e
d o s
m e u s a d i c t o s e a b s t ê m i o s
p u l m õ e s
Jarbas for Aline
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