Campo Limpo = Campo de Batalha

Ontem foi nossa última apresentanção da peça Garotas da Quadra nos CEU´s da prefeitura. Triste falar isso, mas ainda bem. Essa peça nos deu, durante o ano, muito prazer apesar de todas as dificuldades de público, de divulgação e da grande falta de interesse dos críticos em geral. Mas mesmo assim fizemos sempre com imenso prazer, pois foi essa peça que nos deu a oportunidade de entrar num mundo que desconheciamos totalmente, o sistema carcerário brasileiro. Um sistema mais do que equivocado, um sistema falido. Pudemos conversar e trocar informações com mulheres que estão abandonadas e que não têm nunhuma perpectiva de futuro. Estão jogadas, pintando suas unhas compridas e sendo obrigadas a usar o pão do café tosco da manhã como absorvente íntimo. Sabemos que ninguém está lá à toa, mas sabemos também que não é jogando essas pessoas dentro das celas e trancando que se resolve o problema. Muito pelo contrário, dessa forma alimentamos mais ódio, mais raiva e mais todos os outros sentimentos ruins que existem dentro de qualquer pessoa que já foi tão humilhada na vida. E quem pode fazer alguma coisa? Sozinho, ninguém.

Quando, lá em cima, disse ainda bem (por ser a última apresentação nos CEU´s), disse porque achávamos que apresentar essa peça nos CEU´s teríamos uma experiência diferente, pois estaríamos mostrando uma realidade que para eles é muito próxima, pois estão mais do que acostumados a esbarrarem com cadáveres cravejados de balas calibre 38 pelas ruelas de suas casas na favela, estão mais do que acostumados aos toques de recolher impostos pelos traficantes locais e estão mais do que acostumados a serem revistados pela polícia pelo simples fato de terem a pele parda, preta ou suja. Mas não foi assim.

Uma crítica, a Beth Néspoli, quando assistiu nosso espetáculo me disse que o nosso público alvo, o público burguês do teatro Cultura Inglesa estava, a seu ver, errado. Que deveríamos levar o espetáculo para a periferia. Eu disse a ela que não, que era justamente esse público, o burguês, os filhinhos de papai, que queríamos atingir, pois eram eles que desconheciam essa realidade tão cruel. E eu estava certa. Porque na periferia, podemos nos fazer críveis quando essa é a realidade deles? Eu vi que não.

Eles não estão ai pra ninguém, não querem saber de nada, nem de mim e nem de você. Querem que a luz do teatro apague para poderem bulinar as menininhas de 13 anos que riem da sua cara quando você, chorando, conta que seu pai arrebentou sua orelha de tanta pancada. Riem, da sua cara, quando você fala que trocou uma chupeta por uma única pedra de craque. Riem, da sua cara, quando você conta que está grávida, mas que tem medo que o bebê nasça deformado por conta da enorme quantidade de droga que divide com o sangue a irrigação do seu corpo. Falam "que delícia!" quando você conta que "tinha um cara deitado de lado com o sangue esguichando da cabeça e que o sangue misturava com as bituca de cigarro e as merda no chão". O mais triste, riem da própria desgraça.


Mais um CEU

Nos mandamos para Aricanduva. Chegando lá a luz tinha acabado e ficamos sem saber o que esperar. Na verdade, depois da experiência do Parque Veredas, não esperávamos nada mesmo. Qualquer coisa estaríamos saindo no lucro. O Céu, aquele que costumamos admirar vez ou outra, começou a ficar preto anunciando uma chuva torrencial, mas como iríamos sair de lá depois das oito da noite fiquei despreocupada. Me preocupar pra quê? Fudida, fudida e meia...dá no mesmo. Depois de um tempinho a luz voltou e conseguimos montar tudo a tempo. Antes da peça começar, a Ester deu uma pequena pincelada do que eles estavam prestes a assistir e assim não teríamos que passar pelo que passamos no Parque Veredas. A apresentação foi até que bacana e quem assitiu gostou bastante, mas ainda longe de ser o que queríamos que fosse. Paciência. Pelo menos não tivemos que parar a apresentação no meio para que o povo calasse a boca e a chuva, pra nossa sorte (porque isso é que é sorte!), não chegou a inundar o córrego Aricanduva impedindo que chegássemos em casa. De lá, fui dar os parabéns para minha querida Avó Eva que completou 89 anos. Ela ficou feliz em me ver e isso me fez ganhar a noite. Pelo menos isso.

A próxima apresentação será no CEU de Campo Limpo. Liguei pra lá para acertar o horário de montagem de luz (que quem mexe com isso sabe que é um trampo). Segue abaixo o diálogo que tive com a responsável, uma tal de Cleide:

Eu - Oi Cleide, estou ligando para a gente acertar o horário do teatro domingo, no dia da nossa apresentação, para que a gente possa montar as coisas.
Cleide - Ah, ótimo. Nós temos algumas coisas marcadas no teatro nesse dia. A peça é às 19 horas, posso liberar o teatro às 17:30.
Eu - Mas Cleide, uma hora e meia é pouco para a gente montar tudo. Temos que montar a luz toda, gravar a mesa...
Cleide - Mas nós temos várias coisas marcadas nesse dia no mesmo lugar. Vai ter uma sessão de cinema também.
Eu - Várias coisas marcadas no teatro?
Cleide - Sim (e começou a me passar o cronograma)
Eu - Mas Cleide, vocês marcam várias coisas no mesmo dia, no memso lugar...assim fica difícil da gente trabalhar!
Cleide - É...eu sei. mas porque vocês precisam de tanto tempo, vocês não vão usar nosso equipamento?
Eu - (fiquei muda uns segundos e depois continuei) Claro que vamos usar, mas o que estou falando é que precisamos mudar os refletores de lugar, com escadas e tal...e isso leva um tempo, e muitas vezes não é pouco.
Cleide - Ah..vou ver o que posso fazer.

Perdoe Pai...eles não sabem o que fazem.

E lá fomos nós apresentar Garotas da Quadra no CEU do Parque Veredas.

A apresentação no CEU foi surreal. Nunca tinha me apresentado para um público tão feroz. Eles falam durante a peça, tiram barato da sua cara, entram e saem do teatro como se estivessem em casa (e deixam a porta aberta!), andam pelo teatro arrastando suas sandálias conversando alto com os amigos e ainda falam com você quando passam na sua frente quando estão saindo. Eles não sabem que catzo estão fazendo ali e muito menos o que você está fazendo ali. Ninguém contou pra eles que as pessaos quando vão ao teatro vão assistir uma história, que não se conversa durante a peça, que não se pode ficar entrando e saindo porque desconcentra os atores, que os atores estão lá (no caso) para levar algo que eles não tem oportunidade de ver pois a realidade é cruel mesmo. Fiquei com a sensação de que algo ali está muito errado. Não pela molecada, mas pela estrutura, pois eles não têm culpa de não saberem se comportar como a gente espera, mas acho que quem coordena essa parte de cultura teatral no CEU deveria dar noções básicas, não de como se comportar, mas do que vem a ser essa porra que chamam de teatro para evitar constrangimentos para todos. Nós e eles. Mas quem é mesmo que está interessado nisso? O CEU é uma estrutura gigante e tem tudo para dar certo e não pode ficar largada nas mãos de quem tem apenas o interesse do funcionalismo público. Fomos só mais uma atração que não fez diferença alguma para eles. Saimos de lá com a sensação de dever cumprido, mas tristes com a realidade que nos foi mostrada. E que venham as próximas apresentaçãoes em Aricanduva e Campo Limpo. Agora estamos preparados.


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