
NEUROSES, VOCÊ UM DIA VAI TER UMA.
Pra variar, a mala era das grandes e tive que pegar um táxi para a rodoviária. O taxista, um cara de cabelos grisalhos e compridos, com óculos tipo Ray-ban e a simpatia digna desta classe trabalhista. Já no primeiro quarteirão da corrida ele começou a puxar assunto e eu fui dando corda. Falou da violência do rio, da administração da prefeitura, disse que eu tinha que voltar no verão, pois "é no verão que a coisa fica boa", me contou que era amarradão por filmes do velho oeste, que Billy the Kid era lenda e que o fodão mesmo tinha sido o Búfalo Bill (que aliás foi o primeiro carteiro norte -americano!), disse que já tinha morado em Goiás, até que chagamos no assunto viagem. Eu tenho uma relação de amor e ódio com estrada. Adoro viajar, mas respeito todas as adversidades que uma estrada pode nos proporcionar. Assalto, pneu furado, armadilha de traficantes, blitz, cachorro no meio da pista, atropelamento, neblina espessa na serra e lógico, em acidentes com vítimas. Voltemos ao taxista, ele me contou que numa das vezes que viajou até São Paulo viu um acidente feio na estrada. Um carro bateu de frente com um ônibus e que três das quatro pessoas que estavam no carro morreram na hora. Uma mulher e duas crianças. O marido ficou preso nas ferragens com a mola do banco transpassada pelo seu peito. Deve ter morrido no hospital, disse ele. Achei bárbaro ele tocar no assunto quando eu justamente estava indo pegar a mesma estrada. Mas apesar disso, ele era um cara simpático e minha boa alma impediu que eu o mandasse calar a boca ou tomar no cu. Chegamos na rodoviária, peguei minha mala, paguei e me despedi. Ufa, a mala estava pesada e minha cabeça só tinha espaço para coisas catastróficas. Valeu, rapá!! Cheguei no guichê e o próximo ônibus sairia em 5 minutos. Sempre prefiro sentar na janela, assim posso ver se o ônibus está desgovernado ou se o motorista está fazendo ultrapassagens perigosas, mas desta vez não tive como escolher muito meu assento, o ônibus já estava cheio. Poltrona 28, corredor. Pelo menos fica no meio do ônibus, o que dá uma certa margem de segurança caso ele bata em alguém ou alguém bata nele. No meio fica mais difícil ser esmagada. Compro minha passagem e corro até o ônibus. A primeira coisa que faço sempre é olhar para a cara do motorista pra ver se ele aparenta estar cansado, se os olhos estão vermelhos ou estalados, se pode estar bêbado, essas coisas. Tudo parecia normal. Guardei minha mala e escrevi meu nome e RG na passagem. Sei que é um procedimento normal, mas sei também que serve caso aconteça algo que não estava previsto como, por exemplo, identificar a vítima em caso de acidente. Me dá uma certa aflição, é como assinar um contrato onde você corre risco de morte. Mais nada a fazer, entro no ônibus, sento, respiro fundo e pego um livro tentando desviar minha atenção para algo menos perigoso. O livro, A Casa dos Budas Ditosos do João Ubaldo Ribeiro. Cacete, nunca li tanta sacanagem de uma só vez, acho até que o que o João anda dizendo e que está também escrito na contra-capa que ele recebeu um pacote com a transcrição datilografada de várias fitas, gravadas por uma misteriosa mulher, é balela. Ele não ta é querendo se comprometer. Safado. Por que será que todo velho fica safado? Deixa pra lá. Já chegando em São Paulo, a moça ao meu lado liga o rádio e começa a cantarolar uma música. Detesto gente que coloca walkman e fica cantando em voz alta. E cantando mal! Quando chega no refrão ela canta alto com uma voz aguda a la Gal Gosta, "Ressuscita-me...". Sem mais comentários.
Não aguentei esperar que alguém fosse fazer a caridade de me buscar na rodoviária do tietê. Peguei o metrô e me mandei carregando minha pesada mala. Mas viva!
Estou de volta.
RASPAS E RESTOS QUE INTERESSAM
E cá estou eu em terras cariocas. Ontem foi, finalmente, a pré-estréia disputadíssima do filme CAZUZA - O TEMPO NÃO PÁRA, no Shopping New York ou New York Shopping...sei lá. Os 80´s voltaram e eu nem tinha percebido quando sentei na minha cadeira reservada no cinema. O filme foi todo filmado em 16mm por uma questão de linguagem, pra ele ter aquela cara anos 80 mesmo, sem frescuras. E eles acertaram na mosca, parecia mesmo que eu estava lá, vendo um monte de coisas que acoteceram quando eu ainda era meio desligada do que eles representariam anos mais tarde. O Daniel de Oliveira está impressionante. Aliás fiquei na dúvida muitas vezes se ele era ele mesmo ou se o Cazuza resolveu dar uma passadinha pelo set pra dar um forcinha. O moleque tá demais. O filme é dele e a noite da pré-estréia também foi dele. Ele tava lá (óbvio) fazendo cara de fácil. Ele tava feliz e quem o viu quando o filme terminou também ficou feliz de estar lá participando daquilo tudo. O elenco é bacana, todo mundo com cara de anos 80, com aqueles cabelos esquisitos, falando palavrão e aplaudindo o pôr-do-sol em Ipanema. Quanto ao roteiro, eu não sei direito, mas me parece que algumas coisas faltaram e outras ficaram um pouco no ar. Mas pouco importa. Depois de tomarmos um vinho para brindar a vida, saimos para a noite carioca com vontade de catar um carro velho, acelerar e gritar para quem quisesse ouvir que no fundo tudo vale a pena. Apesar de o filme ser produzido pela globo filmes, desta vez eles resolveram fazer cinema de verdade e deixar que minisérie seja apenas minisérie (para quem não entendeu, foi uma cutucada no filme A Lisbela e o Prisioneiro). É vida CAZUZA.
Na próxima semana volto a São Paulo. Tudo que é bom dura pouco, não é verdade?
BREVE NUM TEATRO PERTO DE VOCÊ!
Estarei no
Rio de Janeiro nos próximos dias para assistir a pré-estréia do filme
CAZUZA - O TEMPO NÃO PÁRA (junto com toda a equipe), entre outras coisas que pretendo fazer em terras cariocas. Quando eu voltar darei mais informações.
Aguardem!!!!